Cristãos julgados por evangelizar lutam contra os tribunais da Argélia
Defensores dos direitos humanos afirmam que os vereditos de dois casos de perseguição aos cristãos vão revelar o comprometimento do governo argelino quanto à liberdade religiosaO veredito final de um argelino sentenciado a um ano de prisão por ter, supostamente, propagado a fé cristã, estava agendado para quarta-feira (13), durante uma audiência, em Tindouf. Outro cristão, que está sendo julgado em Oran, pela mesma ofensa, saberá, nas próximas semanas, se sua sentença de cinco anos de prisão será mantida.
No dia 4 de julho de 2012, Mohamed Ibouène, um cristão convertido do Islã, foi sentenciado por um tribunal em Tigzirt a um ano de prisão e multado em 50.000 dinares (aproximadamente 640 dólares americanos) por proselitismo (ou evangelismo). Abdelkrim Mansouri, antigo colega de Ibouène, fez uma reclamação à Guarda Civil Nacional de Tindouf, em fevereiro de 2012, afirmando que Ibouène o pressionou a "abandonar" o islamismo e se converter ao cristianismo. Ibouène nega as acusações, afirmando que, pelo contrário, foi Mansouri quem o pressionou a renunciar sua fé cristã.
"É verdade que você é cristão?", Mansouri
teria perguntado a Ibouène. "Sim, eu sou cristão", ele respondeu. O
primeiro então exigiu que Ibouène retornasse ao Islã, que ele chamou de
"religião dos argelinos," conforme a agência de notícias Morning Star News.
Foi apenas em dezembro que Ibouène descobriu
que sua sentença fora emitida de acordo com o Artigo 11 da Lei 03/2006,
que restringe as práticas religiosas de não muçulmanos. "As autoridades
não o julgaram antes por que aparentemente ele havia deixado Tindouf
depois de se casar em junho e seu paradeiro não era conhecido, e também
devido a processos administrativos lentos," relatou a Morning Star News.
"A história que amarra meu cliente foi
inventada," afirma o advogado de Ibouène, Mohamed Benbalkacem, depois de
recorrer à sentença no dia 23 de janeiro. "Esse julgamento não faz
sentido, pois a própria Lei é ambígua. Não há nada claro em sua
implementação." O juiz tomará sua decisão até o dia 13 de fevereiro.
Ibouène não é o único cristão que corre risco
de ser preso por proselitismo na Argélia. Siaghi Krimo, preso em abril
de 2011 e detido por três dias em Oran, por ter entregado um CD sobre
cristianismo a um vizinho, recebeu uma sentença de cinco anos em maio de
2011, devido ao Código Penal da Argélia, que criminaliza atos "que
insultam o Profeta e qualquer outro mensageiro de Deus, ou denigrem o
credo e mandamentos do Islã." Krimo foi intimado para recorrer no
tribunal em novembro de 2012, depois do adiamento de quase um ano do
julgamento, para que novas provas fossem apresentadas. A próxima
audiência de Krimo foi adiada sem data definida.
Cristãos e muçulmanos vieram à defesa de Krimo
durante protestos fora do Ministério da Justiça antes do adiamento do
caso em dezembro de 2011. "Não importa se ele é um argelino, judeu ou
cristão, ele tem o direito de viver como qualquer outro cidadão que é
muçulmano," afirma Selma, uma estudante muçulmana , ao jornal
independente El Watan. "Um cristão tem o completo direito de
oferecer uma Bíblia a alguém, assim como um muçulmano tem o direito de
oferecer o Alcorão. Antigamente, esses tipos de casos eram vistos
somente em Kabylie, e agora estão acontecendo em Oran. Onde mais
acontecerá?"
Para muitos argelinos, o veredito de Krimo foi
visto não somente como uma ofensa cometida a um cristão, mas também
como uma violação dos direitos humanos de todos os argelinos. "As
pessoas decidiram mostrar solidariedade ao seu concidadão que escolheu
uma religião que o agradou," alegou Kaddour Chouicha, um representante
da Coordenação Nacional de Mudança e Democracia, à Radio France
Internationale. "A constituição argelina permite liberdade de
consciência, liberdade de religião e liberdade de pensamento. O juiz
abusou de seu poder, ao julgar de acordo com sua própria ideologia
,acima de sua consideração pela lei.
Enquanto é possível encontrar leis nos códigos
legais da Argélia que discriminam minorias religiosas, o país é
signatário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, que declara no
Artigo 18 que "todos têm o direito à liberdade de pensamento,
consciência e religião; esse direito inclui liberdade para mudar de
religião... [e] em particular ou em público, manifestar sua religião ou
crença ao ensinar, praticar, louvar, e em observância."
Cristãos como Krimo, contudo, provavelmente
não vão sujeitar-se à pressão do governo – até mesmo se isso significar
aprisionamento – ao renderem suas liberdades religiosas. "A família de
Krimo decidiu batalhar sem medo de ser intimidada pelo tribunal," um
porta-voz da Igreja Protestante da Argélia (EPA) comunicou à ICC. "Eles
não se envergonham de sua fé... Krimo falou que está disposto a ir para a
cadeia se necessário. ‘Eu prego em obediência ao Senhor, e eu pregarei
novamente,’ ele me afirmou."
Informações: International Christian Concern
Tradução: Bruna Soldi
Fonte: Portas Abertas
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