Entrevista: Paulo Teixeira da SBB revela os segredos para se ler a Bíblia
Durante o evento da durante o evento da Feira Literária Internacional Cristã (FLIC), a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) conquistou o prêmio Areté 2012 de literatura em quatro categorias. Em entrevista ao The Christian Post, o secretário de Tradução e Publicações da SBB, Paulo Teixeira, falou sobre desafios na distribuição da Bíblia no Brasil, "analfabetismo bíblico", dicas aos que tem dificuldade de ler a Bíblia, entre outros temas.
- (Foto: Assessoria AV)Mercado de Bíblias no Brasil renova-se com lançamento de edições segmentadas e de estudo. Os mais novos lançamentos incluem a Bíblia da Vovó, Bíblia de Estudo do Obreiro Aprovado e a Bíblia de Estudo MacArthur.
Paulo Teixeira: Num passado não muito distante, há algumas décadas apenas, o maior desafio era a provisão de Bíblias. Havia escassez do Livro Sagrado mesmo nos grandes centros. Hoje, embora essa dificuldade ainda se verifique em regiões como o sertão nordestino e a Amazônia, a SBB e outras agências bíblicas, especialmente as Igrejas, têm tomado medidas para que as populações dessas regiões tenham acesso à Bíblia e a literatura bíblica. A SBB, por exemplo, acaba de inaugurar uma nova Unidade Regional em Manaus, no coração da Amazônia, o que facilita em muito a provisão de Escrituras e o atendimento das pessoas que ali residem através de programas bíblicos de impacto social desenvolvidos pela SBB e apoiados pelas Igrejas e entidades cristãs estabelecidas naquela região.
Atualmente, o maior desafio, em minha opinião, é ajudar as pessoas a abrirem a Bíblia, a compreenderem sua mensagem e a aplicarem os ensinos no seu dia a dia. Para tanto, a SBB tem investido tempo e recursos em ouvir mais as pessoas acerca de suas experiências, sejam boas ou ruins, com o texto sagrado. Nesse contato, temos descoberto, entre outras coisas, que muitos não entendem o que leem e, por isso, embora tenham vontade de aprender a Palavra de Deus, fazem pouco uso dela. Para atender a essas pessoas, a SBB tem desenvolvido programas como “É tempo de ouvir a Palavra de Deus”, no qual as pessoas são incentivadas a ouvir a Bíblia em áudio, quer sozinhas ou em grupos. Em paralelo, para as pessoas que não se sentem muito confortáveis com um texto clássico como o de Almeida, a SBB incentiva o uso da Nova Tradução na Linguagem de Hoje, que traz a mensagem bíblica numa linguagem fluída e atual, sem gírias nem regionalismos, de modo que pode ser entendida por todos os brasileiros. Nossa experiência tem demonstrado que ouvir as pessoas e atentar para os seus anseios e necessidades é grande fonte de inspiração para publicar e distribuir a Palavra de Deus de forma relevante e transformadora.
CP- O Brasil é considerado o segundo maior país cristão protestante e o maior país católico. Apesar disso, o Sr. acha que há “iletralidade bíblica” ou “ignorância bíblica” por parte da população?
Paulo Teixeira: Compreendo esses termos que você menciona. No entanto, prefiro referir-me a esse fenômeno como “analfabetismo bíblico”, que, no meu entender, relaciona Bíblia com educação de modo mais objetivo e compreensível à maioria das pessoas. Há um substrato “bíblico” na cultura brasileira. Foi semeado ao longo dos séculos, mesclando valores e personagens bíblicos com tradições culturais. Por isso temos a “malhação do Judas”, a festa dos “Reis Magos” e a própria celebração do Natal e da Páscoa. Muitos brasileiros, contudo, desconhecem as histórias e os contextos bíblicos nos quais esses personagens e acontecimentos estão inseridos. “Faltou ensinar o povo”, alguém pode dizer. “É hora de ensinar o povo”, prefiro pensar. E o povo aprende.
Basta começar a contar as histórias bíblicas para as pessoas. E como as pessoas gostam de ouvir boas histórias! A Bíblia está repleta delas, histórias para todas as situações, com enredos e lições para todos os gostos e idades, a começar pelas crianças. Daí a SBB estar investindo tanto na publicação de títulos infantojuvenis e de coletâneas de histórias bíblicas para jovens e adultos (como é o caso da coleção “Histórias – de Amor, de Sonhos, de Mulheres, de Dinheiro, de Curas e de Crimes – da Bíblia). Com essas publicações, crianças, jovens e adultos, individualmente ou em família, podem conhecer as histórias da Bíblia, podem encontrar-se com Jesus Cristo, podem aprender o valor e a prática do perdão e da reconciliação. Tudo isso pode ser aprendido e ensinado. E aí, em lugar do analfabetismo bíblico pode surgir uma multidão de pessoas que “desde a infância conhecem as Sagradas Letras” (2Tm 3.15) e nelas fundamentam sua vida. Isso vale para todos, para o evangélico, para o católico e também para quem ainda não professa a fé cristã.
CP- O Sr. já leu a Bíblia inteira? Se sim, quantas vezes?
Paulo Teixeira: Sim, sou um leitor assíduo da Palavra. Faço-o em parte, é verdade, por dever de meu ofício, mas muito mais pelo prazer que constitui estar aos pés do Senhor Jesus e receber dele mesmo ensino e correção, perdão e consolo, orientação e ânimo para todas as horas. Comecei a ler a Bíblia ainda menino. Buscava ali – veja que curioso! – algumas das histórias que aprendi de minha avó, a saudosa D.ª Olga, que misturava contos sobre santos católicos, como Clara e Francisco de Assis, com milagres de Jesus e passagens da vida de Pedro e dos apóstolos.
Minha avó, analfabeta, aprendia essas histórias de ouvido e misturava Palavra e tradição, sendo um retrato vivo de algo que mencionei na pergunta anterior. Aos 7 anos, como aluno de uma escola cristã, lancei-me à leitura da Bíblia. Queria aprender os detalhes das histórias da minha avó. Quando disse isso ao meu professor, o também saudoso pastor Nilo Strelow, que também lecionava Ensino Religioso, com toda a paciência recomendou-me começar pelo Evangelho de Marcos e, uma vez que o tivesse concluído, que fosse para um dos outros Evangelhos. Junto com essa orientação, o pastor Nilo também pediu que eu pedisse a permissão de meus pais para inscrever-me na Escola Bíblica Dominical.
E assim foram meus primeiros passos com a Bíblia. A leitura diária – considerando-se minha idade – não era lá muito fácil, mas recebi o incentivo necessário para persistir. Já as aulas da Escola Bíblica eram saborosas e nelas cansava os professores com tantas e tantas perguntas. Que tempo bom aquele! Só lá pelos 13 anos, quando concluí a leitura da Bíblia inteira pela primeira vez, é que confirmei o que já desconfiava há algum tempo: as histórias de Clara e Francisco de Assis não estavam escritas na Bíblia. Em todo caso, sou muito grato a Deus por minha avó ter ensinado muitas dessas histórias para mim, pois traziam lições de pessoas que levaram a mensagem de Deus a sério e colocaram sua fé em ação para a glória de Deus e o bem do próximo. Hoje, já devo ter lido a Bíblia umas 12 vezes, em diferentes versões. Começo meu dia com trechos bíblicos. Sigo um roteiro de leitura proposto pela SBB, que mescla trechos do Antigo e do Novo Testamento. Isso faz uma diferença imensa na minha vida e na de minha família! Sentimo-nos fortalecidos por Deus e agradecidos a ele.
CP- Muitos cristãos ouvem sermões cristãos em suas igrejas ou até mesmo on-line, mas não fazem leitura da Bíblia. Existe alguma implicação nisso?
Paulo Teixeira: Comparo quem age dessa maneira a uma pessoa que acha que pode alimentar-se só uma ou duas vezes por semana, quando, à sua mesa, na sua casa, está servido diariamente um banquete. Abrem mão de um privilégio ímpar de aprender diretamente dos lábios do Deus que ensina e fala na Palavra. E aí – uma segunda implicação – a fé dessas pessoas torna-se demasiadamente dependente do ensino que vem pela boca de outros. Claro que há pregadores bons e capazes nas Igrejas, pessoas preparadas e ungidas pelo Espírito Santo, que ensinam conforme a Palavra. No entanto, lembremos que mesmo o ensino de Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, foi crivado pelos cristãos de Bereia à luz das Escrituras Sagradas. É o que está escrito em Atos 11.17. Busque esse texto agora mesmo em sua Bíblia e veja que belo incentivo para que você faça uso diário da Bíblia Sagrada. Como os bereanos, além de crescer na comunhão com Deus, você também pode “examinar as Escrituras todos os dias para ver se as coisas são, de fato, assim”.
CP- Quais seus conselhos para aqueles que têm dificuldade de ler a Bíblia?
Paulo Teixeira: Busque uma versão da Bíblia mais fácil e comece por ela, de preferência por um trecho mais conhecido, como um Evangelho, ou pelos Salmos. Como versão mais fácil e convidativa, recomendo o uso da Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH), que também pode ser lida em paralelo com versões mais clássicas, como a de Almeida. Uma ajuda no esclarecimento da outra. Além disso, para as pessoas que realmente resistem à leitura, sugiro começar a ouvir a Palavra de Deus gravada em áudio, um trecho por dia. Tanto as versões de Almeida quanto a NTLH estão disponíveis nessa modalidade.
CP- Quais seus conselhos para os que nunca leram a Bíblia?
Paulo Teixeira: Comecem o quanto antes! – simples assim. O resto o Espírito Santo faz, assim como aconteceu comigo e com tantas outras pessoas.
CP- Quais suas palavras ou comentários que gostaria de deixar aos leitores?
Paulo Teixeira: Continuem apegados à Palavra de Deus, apaixonados pelas Escrituras Sagradas. Orem pelos que trabalham na tradução, publicação e difusão da Palavra de Deus no Brasil e no mundo. Tomem como missão de sua vida incentivar a que pelo menos mais uma pessoa se torne um leitor assíduo da Palavra de Deus, a começar pelas crianças. Acima de tudo, por fim, sigam o conselho de Tiago em sua Carta, como está escrito: “O evangelho é a lei perfeita que dá liberdade às pessoas. Se alguém examina bem essa lei e não a esquece, mas a põe em prática, Deus vai abençoar tudo o que essa pessoa fizer” (Tg 1.25). Deus abençoe a todos os que ouvem a sua voz!
Fonte: The Christian Post
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